quinta-feira, 31 de março de 2011

O preconceito em relação à Filosofia



Você já sofreu algum tipo de preconceito?

Preconceito? Sempre ouvimos falar nessa palavra, mas afinal de contas o que ela significa? Existem várias formas de explicar o que é preconceito, sugiro que você pesquise para ampliar seu horizonte de conhecimento.
De forma geral, o preconceito não passa de um conceito que criamos ou atribuímos antes de saber o que aquilo realmente é. Por esse falso conceito julgamos as coisas de forma errada e, muitas vezes, maltratamos o próximo sem pensar nas conseqüências daquele ato. No mundo existem várias formas de preconceito. Por exemplo: quando criticamos uma determinada religião sem conhecê-la de fato, quando julgamos as pessoas e as coisas pela aparência, etc. Geralmente o preconceito é manifestado pelo aquilo que é diferente do cotidiano das pessoas ou pelos falsos valores criados pela sociedade, por exemplo: por se negro, homossexual, pobre, “nerd”, pertencer à outra etnia, etc. Tudo isso é muito triste e revela a intolerância e a irracionalidade de alguns valores sociais.
Se formos descrever todos os tipos de preconceitos ficaremos meses e não descreveremos tudo. O importante é não julgar pelas aparências e buscar sempre conhecer a verdade atende de formular o seu conceito, evitando assim os falsos conceitos.
E com a Filosofia, será que existe preconceito? Como a Filosofia é vista atualmente? Vamos construir a resposta juntos.
Com o advento das revoluções cientificas e a difusão da ideologia do capital, o saber, sobretudo o filosófico, foi sendo gradativamente desconsiderado e em seu lugar elegeu-se um outro saber, totalmente direcionado a servir aos interesses de uma sociedade pragmatista, utilitarista e consumista.
A ciência, aliada ao capitalismo, passa a definir os paradigmas culturais, éticos e estéticos, vinculando unicamente as informações que favoreçam a lógica individualista e do acúmulo de riquezas, transformando o homem, antes visto como um ser de cuidado, em um ser de consumo, exposto na prateleira das mercadorias descartáveis e alienadas da pós-modernidade.
Com isso, as questões existenciais e axiológicas passam a ser encaradas como inúteis e, conseqüentemente, descartas, gerando total esquecimento da problemática humana.
Com base nesse contexto, propomos a você uma reflexão filosófica, tal qual um grito de resistência contra a banalização do homem e a depreciação do conhecimento.
Será que o preconceito contra a Filosofia é atual ou sempre existiu.
O que acham?

O preconceito em relação à Filosofia existe desde seu surgimento, no século VII a.C.
Vejam os exemplos abaixo disponível na apostila do aluno - 3º série - volume 01.
Tales de Mileto - o distraído;
Sócrates: aquele que vive nas nuvens;
A morte de Sócrates, e muitos outros.


Vejam o que diz alguns trechos do livro “Convite a Filosofia” de Marilena Chauí.

Para que Filosofia?
[...] “Ora, muitos fazem uma outra pergunta: afinal, para que Filosofia? É uma pergunta interessante. Não vemos nem ouvimos ninguém perguntar, por exemplo, para que matemática ou física? Para que geografia ou geologia? Para que história ou sociologia? Para que biologia ou psicologia? Para que astronomia ou química? Para que pintura, literatura, música ou dança? Mas todo mundo acha muito natural perguntar: Para que Filosofia?
Em geral, essa pergunta costuma receber uma resposta irônica, conhecida dos estudantes de Filosofia: “A Filosofia é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”. Ou seja, a Filosofia não serve para nada.
Por isso, se costuma chamar de “filósofo” alguém sempre distraído, com a cabeça no mundo da lua, pensando e dizendo coisas que ninguém entende e que são perfeitamente inúteis.
Essa pergunta, “Para que Filosofia?”, tem a sua razão de ser.
Em nossa cultura e em nossa sociedade, costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática, muito visível e de utilidade imediata.
Por isso, ninguém pergunta para que as ciências, pois todo mundo imagina ver a utilidade das ciências nos produtos da técnica, isto é, na aplicação científica à realidade.
Todo mundo também imagina ver a utilidade das artes, tanto por causa da compra e venda das obras de arte, quanto porque nossa cultura vê os artistas como gênios que merecem ser valorizados para o elogio da humanidade. Ninguém, todavia, consegue ver para que serviria a Filosofia, donde dizer-se: não serve para coisa alguma.
Parece, porém, que o senso comum não enxerga algo que os cientistas sabem muito bem. As ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros, obtidos graças a procedimentos rigorosos de pensamento; pretendem agir sobre a realidade, através de instrumentos e objetos técnicos; pretendem fazer progressos nos conhecimentos, corrigindo-os e aumentando-os.
Ora, todas essas pretensões das ciências pressupõem que elas acreditam na existência da verdade, de procedimentos corretos para bem usar o pensamento, na tecnologia como aplicação prática de teorias, na racionalidade dos conhecimentos, porque podem ser corrigidos e aperfeiçoados.
Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer fatos, relação entre teoria e prática, correção e acúmulo de saberes: tudo isso não é ciência, são questões filosóficas. O cientista parte delas como questões já respondidas, mas é a Filosofia quem as formula e busca respostas para elas.
Assim, o trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho da Filosofia, mesmo que o cientista não seja filósofo. No entanto, como apenas os cientistas e filósofos sabem disso, o senso comum continua afirmando que a Filosofia não serve para nada.
Para dar alguma utilidade à Filosofia, muitos consideram que, de fato, a Filosofia não serviria para nada, se “servir” fosse entendido como a possibilidade de fazer usos técnicos dos produtos filosóficos ou dar-lhes utilidade econômica, obtendo lucros com eles; consideram também que a Filosofia nada teria a ver com a ciência e a técnica. [...]


Inútil? Útil?
[...] O primeiro ensinamento filosófico é perguntar: O que é o útil? Para que e para quem algo é útil? O que é o inútil? Por que e para quem algo é inútil? O senso comum de nossa sociedade considera útil o que dá prestígio, poder, fama e riqueza. Julga o útil pelos resultados visíveis das coisas e das ações, identificando utilidade e a famosa expressão “levar vantagem em tudo”. Desse ponto de vista, a Filosofia é inteiramente inútil e defende o direito de ser inútil.
Não poderíamos, porém, definir o útil de outra maneira?
Platão definia a Filosofia como um saber verdadeiro que deve ser usado em benefício dos seres humanos.
Descartes dizia que a Filosofia é o estudo da sabedoria, conhecimento perfeito de todas as coisas que os humanos podem alcançar para o uso da vida, a
conservação da saúde e a invenção das técnicas e das artes.
Kant afirmou que a Filosofia é o conhecimento que a razão adquire de si mesma para saber o que pode conhecer e o que pode fazer, tendo como finalidade a felicidade humana.
Marx declarou que a Filosofia havia passado muito tempo apenas contemplando o mundo e que se tratava, agora, de conhecê-lo para transformá-lo, transformação que traria justiça, abundância e felicidade para todos.
Merleau-Ponty escreveu que a Filosofia é um despertar para ver e mudar nosso mundo.
Espinosa afirmou que a Filosofia é um caminho árduo e difícil, mas que pode ser percorrido por todos, se desejarem a liberdade e a felicidade.
Qual seria, então, a utilidade da Filosofia?
Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes”. [...].


FONTE: CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora Ática S.A., 1994. 440 pg.

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